quarta-feira, 22 de março de 2017

Oh, Telavive, se eu te esquecer...

Reuven Rubin, Vista com concerto

"Oh, Telavive!, se eu te esquecer...que a minha mão direita me esqueça…”

Podia também dizer, como o poeta japonês Yamagushi Sodo:
"Esta Primavera na minha cabana
Absolutamente nada
Absolutamente tudo…"

Comovi-me ao ver as fotografias que a Gui tirou em Telavive. Sem poder conter as lágrimas, revi-me a chegar, tantos anos antes, a Israel. O Manuel já lá estava. Eu fui mais tarde, tinha tido que organizar alguns aspectos da nossa mudança para lá. Cheguei em Agosto, com o nosso cão Zac!
 A primeira impressão foi o calor extremo, um calor seco, não como o calor húmido de São Tomé – de onde vinha.  Era o calor de deserto, dos ventos secos e estonteantes, como o scirocco que sentira, tantas vezes, em Veneza.
Depois de cinco anos em São Tomé, que amei mas onde vivi mal muitas vezes, com uma ansiedade imensa, pela falta de electricidade constante; pela falta das coisas a que nos habituamos e que ali não havia; pela sensação de claustrofobia da ilha- ver Telavive foi como uma bênção! Luzes, agitação, cafés por toda a parte, espectáculos, museus, ballet, concertos!
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A definição de ilha é afinal 'porção de terra cercada de água por todos os lados' - facto que, por vezes, sentimos tão real como a impossibilidade de comunicar com o resto, ou o afastamento consciente do resto do mundo, num zona tropical. Muitos amigos, muita recordação boa, gente amiga, isso sim. 
Como poderei esquecer o senhor Semedo que chamava ao meu cão "compadre Zac"! 
E que me dizia que ficavam os dois a conversar no jardim e a ler o jornal, quando saíamos à noite: "Dotora, Zac só falta falar. Percebe tudo!"
Zac, em São Tomé

Mas a verdade é que, para mim, chegar a Telavive foi um sopro de ar (quente, é certo) que 'redimiu' tudo o resto: a angústia quando o avião partia e só voltava na semana seguinte, o medo do paludismo – medo real pois, nos três últimos anos, tive crises  todos os meses, o receio de ter uma doença grave e tão pouco apoio...
Telavive, vista de Jaffa (foto Gui Poppe)

O aeroporto Ben Gurion, cheio de sol nas vidraças abertas, e de gente nova, fardada ou não, que me acolhia
O encontro com Mr. Israel que vejo entrar pela faixa rolante e trazer o Zac ao colo, e a gaiola aberta ao lado. O Zac meio adormecido ainda que logo arrebitou, ao ver-me. 

Inesquecível esta pessoa - o major Israel- que nesses anos nos ‘protegeu’ e aconselhou, nos levou de passeio pelo país, nos mostrou outra face de Israel. Amigo que não esqueço – e que já não responde ao telefone, como os outros que se foram...

Sim, há sítios que não se esquecem nunca na vida! pela força que têm, pelas marcas que deixam gravadas dentro de nós, pelas situações que neles se vivem, ou, ainda mais importante, pelas pessoas que se encontraram.
Telavive, entrada da nossa casa (foto Gui Poppe)

Oh, Telavive, se eu te esquecer…

Telavive, onde vivi cinco anos, vem-me sempre à memória como um lugar de sonho. Por isso, hoje tive vontade de chorar a ver as fotografias da ‘minha’ casa maravilhosa, na Rehov Lassalle, nº 4-  bem pertinho da Promenade e do mar.
(foto Gui Poppe)


(foto Gui Poppe)

Kikar Atarim, para lá da Hayarkon, uma praça com a decoração mais absurda que me lembro de ver, e a velha discoteca circular, de vidros baços, abandonada. 

Perto da Piscina Gordon, de onde se avistava a Marinha. Onde havia um grande supermercado cheio de confusão, o Café Panorama - e as escadas que iam dar à praia e ao grande Passeio cheio de cafés e de gente viva!
(foto Gui Poppe)

As escadas que, para o fim, o Zac subia ao meu colo quando voltávamos para casa, pela praia. Já cansado, estendia-me as patinhas e eu subia aquela grande escadaria abraçada a ele.
Promenade e escadaria (foto Gui Poppe

Aprendi a ter a consciência de que cada minuto era precioso, cada dia era único, porque ali se sente, mais do que em todos os outros lugares, que a vida não dura sempre, ao contrário dos famosos diamantes, e que é preciso aproveitar o momento que passa e viver intensamente o que nos é dado viver.
Vida e morte estão demasiado presentes naquela terra, a morte ronda demasiado perto para a esquecermos, mas olhando o telaviviano nunca pensamos nisso porque tudo é tão decisivo em cada momento que viver é o pensamento que nos invade todas as manhãs.
(foto Gui Poppe)
Na Rehov Lassalle conheci gente extraordinária, entre eles os nossos senhorios, os Reshef, que foram amigos. A Laura que trabalhava num café à esquina com a Ben Yehuda
(foto Manuel Poppe)

A Laura que vinha nas sextas-feiras depois do trabalho, e antes do 'shabat', tomar um chá comigo. Ficávamos na cozinha cheia de postais de todo o mundo, ensolarada e alegre, a conversar e a rir de tudo. Eu era mais nova e sentia-me renascer naquela terra.
(foto Gui Poppe)

Quis conhecer tudo, ver tudo e lá ia com o Zac passear rua acima rua abaixo, para norte ou para sul, no ‘sherut’, o pequeno autocarro de sete lugares que parava onde queríamos para subir como para descer e pouco importava a distância, pagávamos poucos shekalim – e o Zac não pagava nada. E que nos levava a toda a parte. 

Assim conhecemos toda a rehov Ben Yehuda a pé, fomos parar à Dizengoff, a das lojas e das luzes. E ao Café Segafredo, onde passámos todos muitas horas da nossa vida!
o Zac no Café Segafredo

E também à rehov Sheinkin, perto do  Shouk Ha-Carmel, rua da cultura, dos cafés branchés, das lojas de discos, dos restaurantes com saladas de todos os tipos, das sopas geladas de pepino com iogurte e hortelã, dos ‘falafel’, do sumo de romã em cada canto.
Recordar tudo isto fez-me chorar. Sei que "hei-de voltar um dia", como dizia Branquinho da Fonseca ao seu Barão: "sim, Barão, hei-de voltar um dia e havemos de ir de novo pelas serras à procura da Bela Adormecida, com uma rosa na mão…"
(foto Gui Poppe)

Será que é verdade? Não sei, mas do fundo do coração desejo-o. O que é Telavive? E ver a varanda da casa, lá no alto, onde víamos toda a cidade e onde o Zac, ao meu colo, parecia cheirar todos os aromas do mundo - impressiona-me hoje que tudo isso acabou.
"Absolutamente nada
Absolutamente tudo…"

E penso –como diz o Salmo 39- que “a vida é um momento efémero, um sopro, uma passagem”. Nem sempre é fácil encontrar um sentido para essa fragilidade e precariedade da vida humana.
O Zac, perto do fim (foto Manuel Poppe)

Foi em Telavive que a minha vida me pareceu muito frágil, sim. Foi ali que perdi o meu amigo Zac, que lá ficou para sempre na Terra Santa, no moshav de Udim, onde moravam grandes amigos, que o quiseram receber. Está enterrado debaixo de uma palmeira brava.

Vida precária – como via todos os dias, com as ameaças de atentados, no olhar atento com que se perscrutam os cantos, as ruas sem saída, e os caixotes  susceptíveis de esconderem uma bomba. E onde se continua a andar em frente porque a vida continua, em frente, sempre em frente, como se nada contasse.
atentado no Café Moment (Jerusalém)
mais um atentado


No entanto, foi aí exactamente que pensei que a vida tinha sentido! Havia algo em que acreditar e algo a construir: vivia-se a vida em construção interior constante, na procura de um absoluto qualquer. Indefinido, mas real, apesar de ter tanto que ver com o Sonho e com a Utopia!

E o absoluto é, tantas vezes, uma coisa tão simples! A companhia, o entendimento profundo dos outros, a dádiva de si, a solidariedade! E tudo isso encontrei Em Telavive...
Parafraseando o Salmo 137, posso dizer:
“Oh, Telavive, se eu te esquecer que a minha mão direita me esqueça…”

quinta-feira, 16 de março de 2017

'haikus' de Inverno

Que dizer mais que não tenha dito já sobre estes poemas? Não gostaria de cansar os meus leitores...mas acrescento um pouco mais.

O caçador de sensações - que é o poeta que escreve estes curtos poemas "essenciais", síntese de imagens e de sentidos vários, em simultâneo-  não julga o real conforme a expectativa, mas procura sim prendê-lo tal qual ele é. 
Aqui deixo alguns poemas breves de grande intensidade emocional, na simplicidade absoluta.
Hocusai, Fuji

*
Tusso
Logo existo
Neve da meia-noite
Hino Sôjô
Como nestes poemas de Inverno em que ao céu de Inverno se associa a ideia da morte precoce dos soldados que partem para a guerra e sabem que vão morrer.
*
Céu azul de Inverno –
Quem diria que ia morrer
Antes da minha mãe
Sôma Senshi

Hocusai, Ventania

Ultrapassados? Infelizmente neste tempo de guerras e cataclismos que correm pelo mundo fora, de Oriente a Ocidente, está bem presente aos nossos olhos a morte - e a tragédia dos humanos, quantas vezes causadores eles próprios da própria tragédia! 
*
Para o soldado ferido
Como é frio o céu
Por cima dos altos cedros!
Yokoyama Hakkô
*
*
Só são jovens
Os meu amigos mortos na guerra –
Estalactites
Mitsuhashi Toshio

quarta-feira, 15 de março de 2017

Ainda Jim Jarmusch e o filme "Stranger Than Paradise"

Jim Jarmush sempre me  interessou: um toque de loucura, um toque de “nouvelle vague”, a poesia dos sítios abandonados e dos lugares hoje (des)habitados e vazios do calor que tiveram. Boa realização, também, e com actores bem dirigidos. 
Falo do filme Stranger than Paradise (1984) que revi há pouco (em DVD), depois de mais de vinte anos sem o ver. Com o desejo sempre de voltar a vê-lo. “Atraía-me” filme. Tinha dele uma vaga ideia de vidas perdidas e sem sentido.
John Lurie
Não acontece nada? Sim, e não. Não acontece 'nada', de facto, é a pasmaceira total, mas há a expectativa de algo novo, um desejo de aventura no dia a dia que é de uma monotonia que mata. Num bairro pobre, as figuras são "marginais", sonhadores e passivas e que nada fazem para modificar a vida.

O protagonista é um desadaptado que vive sem saber como nem porque vive, sem nenhum interesse aparente pela vida, desconsoladamente, bebendo umas cervejas por aqui, jogando ás cartas por ali, fazendo paciências na cozinha!

Willie (o actor John Lurie, jazzista, guitarrista dos Lounge Lizzards) é um jovem imigrante húngaro -desenraizado- em Nova Iorque. Viera da Hungria não sabemos bem quando e, por vezes, tem saudades desse sítio que quase não conheceu. Eddie (o actor Richard Edson), o melhor amigo, tem uma história de vida idêntica. Os dias decorrem iguais, repetitivos até à exaustão, entre o café, a rua e os amigos igualmente pasmados. 

Apesar de se passar algures na América, podia ser o "Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati: o Forte no deserto onde soldados e oficiais superiores aguardam a chegada do inimigo: o ataque dos bárbaros que nunca chegará... 
No fundo é uma metáfora das vidas que decorrem sem nenhuma expectativa, nenhuma esperança, nenhuma certeza se não a da morte que virá um dia. E quando a morte chega, nada traz, vence os guerreiros, sem qualquer possível oposição. E tudo é ainda mais absurdo!
Willie recebe um dia a visita inesperada da jovem prima que vem de Budapeste.  Vem de longe, da Europa. E o que é para eles a Europa, a Hungria? Talvez o desejo de um regresso. 
Ezster Balint, num concerto

Eva (a violoncelista húngara Ezster Balint), a prima, passa por casa de Willie, e traz um burburinho, uma agitação: enche a casa. Tem ideias divertidas, nunca se aborrece.   Está  apenas de passagem, porque a velha tia Lottie - a quem vai fazer companhia durante uns tempos- foi operada e vai estar uma semana no hospital. 
John Lurie, pintor, e 'O esqueleto do armário foi ao quintal'

Primeiro Willie sente-se incomodado pela vinda de alguém que perturba os seus hábitos. Alguém que altera até o vazio da sua vida. Mostra-se indiferente, de início, responde por monossílabos, mas a verdade é que, depois de 10 dias  de convivência, os dois criam uma amizade. 

Eva tem vida, inventa "soluções" de almoços, "arranja" -não sabemos como- uma televisão e passam os dias divertidos a ver televisão, a jogar às cartas e a comer. Eddie aparece de vez em quando. Aquela miúda alegre e desinibida consegue agitar a vida deles no espaço de poucos dias.
Eva parte para tomar conta da tia Lottie e deixa, atrás, o rasto da alegria, e um pouco da sua loucura.  A vida torna-se ainda mais desinteressante para o nosso herói mais o seu amigo. 
Mas o tempo passa veloz. Um ano depois, Eddie e Willie, mais aborrecidos do que nunca, tendo ganhado muito dinheiro ao jogo (à batota), decidem ir visita Eva. Eddie tem um velho carro e partem para Filadélfia.
Perdidos pelas estradas, antes e depois de chegarem a Filadélfia, lá vão ter a casa da tia Lottie, onde ficam uns dias. 
Decidem ir à Florida com Eva. A Florida que sonharam com sol, e que estava estava gelada e com neve.
Viagem de loucos a destes três, sem meta, nem sentido. Vagueiam, divagando, filosofando sem falar, pelas praias, juntos e separados, como num ballet absurdo. Param num motel e aborrecem-se. Não encontram nada para fazer.

 Eddie, Eva e Willie

Há muita inconsciência neste deambular à procura de nada! Talvez à procura dum sítio que fosse o "seu" de cada um. Param a olhar o que foi – ou podia ter sido- e já não é. A imagem da longínqua Budapeste atrai-os. E não vou contar o resto claro...

 Filme de humor amargo e doce ao mesmo tempo.

No fundo são imigrados que nunca foram se não isso: Desadaptados. E que o serão sempre, aqui ou ali. Que nunca encontrarão o seu lugar inteiro, partidos entre duas vidas, entre mundos irreconciliáveis.

Será que os lugares que foram habitados um dia, poderão ainda encher-se de novo de sentido? 
Não creio. Mas ficamos presos às figuras  – e nós próprios à espera de qualquer coisa…
Como no Deserto dos Tártaros onde nada acontece nem acontecerá?